quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Quando?

Ela, um dia, escreveu sua música predileta num coração recortado de papel vermelho, assinou e postou no correio, coração aos pulos, esperando ansiosamente o impacto que aquelas palavras iriam ter. Ele, então, alguns quilômetros e dias à frente, recebeu o envelope, achou graça do coração mal recortado mas sentiu-se abraçado pelo sentimento que carregava aquele pequeno pedaço de papel.


Tanto tempo longe de vc, quero ao menos lhe falar
A distância não vai impedir, meu amor, de lhe encontrar
Cartas já não adiantam mais, quero ouvir a sua voz
Vou telefonar dizendo que eu estou quase morrendo de saudade de vc


Eu te amo, eu te amo, eu te amo...





40 anos depois, eu, o fruto concreto dessa história (ha ha ha), tenho pensado frequentemente em como as pessoas dizem eu te amo. Nesses tempos de internet, orkut, facebook, twitter e tantos lugares impróprios de se jogar confete, a frase emblemática virou tão comum qto fritar ovo pra comer com pão. Não que fritar ovo não seja uma arte, mas é, digamos, uma arte bem primária, vamos convir.  Minha mãe, há 4 décadas, morta de saudades do meu pai - então namorado - e separada dele por cidades diferentes, num mundo onde não tinha email, telefone era difícil e msn era coisa impensável, deu seu jeito de driblar o binômio espaço-tempo e, sem medo de ousar, mandou ver na declaração de amor, sem medo de ser feliz e, muito menos, sem pagar direitos autorais ao perneta (vulgo Robertão). Parece tão mais fácil dizer eu te amo assim, né? Mas se trata de uma decisão  tão séria pra se tomar na vida... Sentir-se amando alguém é uma responsabilidade tão grande qto aquela fábula do Pequeno Príncipe - tu te tornas responsável por aquilo que cativas . Amor, na sua essência, é o sentimento mais altruísta que se tem notícia. Falar sobre ele não pode ser tão banal a ponto de se dizer pra todo mundo, qualquer um, qualquer grupo, qualquer amigo, qualquer parente ou qualquer pessoa que esteja ao nosso lado. Amar é uma coisa tão séria qto respirar, comer, pensar... Exige respeito, consideração, e, mais do que afeto, exige entrega. A entrega absoluta de dizer: tome aí meu coração, gosto de vc independente do que vc possa sentir por mim. Demora pra gente sacar isso. Demora pra gente entender qdo é de verdade, demora pra cacete. Mas qdo a gente entende quem realmente pode fazer a diferença...

Essa não é uma reflexão qualquer, não está escrita à toa ou para qualquer um.  Está aqui pq adorar  tem se tornado um verbo pequeno e eu tenho me borrado de medo de admitir tal coisa. Fico dialogando com meu pouco juízo horas e horas antes de dormir, calculando tempo, hora e lugar marcado. Cedo ou tarde? É tempo? E é aí que, sem querer, eu ligo o rádio e acabo escutando uma música que há tempos não ouvia e,  como numa resposta ao meu pensamento, diz assim:

E hj em dia, como é que se diz eu te amo?


Renato Russo (música: Vamos fazer um filme) já perguntava isso há tanto tempo e eu nem tinha me dado conta de como é importante essa reflexão.







Então vem a minha mente perigosamente geniosa e modesta para acrescentar: E hj em dia, QUANDO é que se diz eu te amo?

 

Hein? Alguma sugestão? Nhé.










P.S.  E desde qdo o amor tem tempo?  


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